sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Da política (Parte1)



1ª Parte

Nas físico-químicas, podemos encontrar substâncias ou compostos de elementos em estado que se denominam estáveis ou instáveis. Quando o cientista analisa e age sobre estes elementos na busca de algo, transporta consigo um princípio epistemológico relacional entre vida e matéria.
Como se depreenderá facilmente, não é possível em pensamento político adoptar a mesma raiz epistemológica quando se lida com um estado composto por homens. Revelar-se-á indigno de qualquer organização política, não considerar para além da costumeira análise matéria-vida (economia), as análises de origem epistemológica vida-psique (ciência política) e, obviamente, psique-pneuma (arte política).
Sem o descrito, a ausência de estado acentuar-se-à ainda mais, caso no meio político se verifique a existência de um movimento caótico em termos sociais.
Um país que viva em estado de instabilidade social, sem regime, sem doutrina, poder-se-á chamar-se de estado? Habitualmente, nesta situação, continuará a se denominar estado mas unicamente em termos formais (de jure), faltando a substancia que preencha essa mesma forma (de facto).
Destarte, poderemos assim proceder à construção dos alicerces físicos, psíquicos e pneumáticos do que se denomina Estado de facto (sendo este independente ou não).
Iniciando em termos do preceito epistemológico matéria-vida, podemos sem grande receio de errar, afirmar que para que exista estado, os seus membros terão que: - Comer, beber e ter habitação -, pois sem o preenchimento destas três condições não será possível o passo seguinte, ou seja, a passagem para o preceito epistemológico da relação entre vida e psique. Situação à qual o sapientíssimo Agostinho da Silva se referiu: - Comeu? Bebeu? Dormiu? Muito bem! Está então pronto para ser educado.
Preenchendo os preceitos acima descritos, existirá então a passagem à educação (didáctica ou ainda formação), palavra derivada do latim educare, por sua vez com ligação ao verbo ex ducere, que tem como significado intrínseco: - Libertar, extrair, guiar de dentro para fora – conceito este, onde de maneira nenhuma pode ser confundido com instrução, palavra derivada do latim instructio, que significa: - adaptar, ordem, disposição.
A educação tende a permitir a ligação entre a anima (no seu sentido lato) ou alma, com o princípio, ou por outras palavras, com o estágio mais alto do espírito humano, evitando desta forma a absorção por parte dos indivíduos e seus respectivos líderes, de mitologias hodiernas e respectivas crenças (Mitologia = do grego mythos (enredo) + Logos (pensamento) - pensamento sobre um ponto do enredo, substituindo dessarte o princípio).
Passando do período de educação para o período de instrução, verificou-se no passado tal como hoje, que os indivíduos sujeitos ao processo educativo, tendem a manter esta ligação com o princípio.
No que diz respeito ainda à educação, urge um esclarecimento. Verifica-se que um significativo número de elementos do sexo feminino da sociedade que se mostram contra o processo educativo na escola. Frases como: - A educação dá-se em casa não na escola - não são mais do que afirmações de quem confunde dois estágios diferentes desse processo didáctico que é a educação. Tal como a filosofia portuguesa afirma por intermédio de seus ilustres representantes do passado, a mulher, é eternamente a educadora do homem. Não será por outro motivo, que cada vez que se denomina alguém ou geração de mal educada, são os elementos do sexo feminino que tendem a reagir com indignação face a tal afirmação, pois a mulher, mesmo sem a devida confirmação intelectual, sabe que a educação é algo que lhe pertence. Todavia, hoje, assim como Delfim Santos nos fez lembrar, perdeu-se toda a informação educativa que existia até ao governo do Marquês de Pombal. A educação administrada pelo feminino incide sobretudo na relação da criança com o mundo (costumes comportamentais), divergindo esta, daquela mencionada pelos filósofos, que se predica numa iniciação ao auto conhecimento de si próprio, do que pode levar ao mundo, completando o processo educativo feminino que incide no movimento da relação estabelecida da criança com o a rodeia (diferença entre o que está estabelecido e o que se deve estabelecer (que vem de dentro)).
A própria mulher, embora muitas vezes sem consciência disso, é a primeira victima da ausência da educação masculina. Frases como: - “já não há Homens” -, ou títulos de ensaios como: - “Machos há muitos, Homens há poucos” -, não são mais que a confirmação do que Álvaro Ribeiro nos referiu acerca da evolução de cariz aristotélica do homem, onde este embora aprendendo alguma gramática, nunca ultrapassa ou domina a dialéctica e, por consequência procede na vida (até ao fim desta) com a agressividade típica de um adolescente, sendo incapaz de ascender ao varonil estágio retórico, ante-câmara do amor. No momento em que escrevemos, o País é dominado por tecnocratas e mecanocratas com o consequente comportamento apátrida e, se prestarmos atenção e ouvirmos as intervenção públicas por parte do público feminino usando os órgãos de comunicação social, assistimos à vulgar denominação de “criançolas” para adjectivar os governantes.

Entre dois homens, um educado e instruído e outro apenas instruído, que tenham optado ambos por seguir uma carreira em física, nos cálculos matemáticos inerentes ao seu trabalho, o primeiro tenderá a espantar-se devido ao facto de conseguir abstrair para matemática conceitos complexos sobre o que o rodeia, embora permaneça nele o eterno mistério da essência do “1” (capacidade de espanto permanente). O Segundo, seguindo meramente as normas e regras que lhe foram instruídas na academia, tenderá a não reflectir essa permanente relação com o mistério, espantando-se apenas ocasionalmente com a natural descoberta de novos factos, ou doutro modo: - quando soluciona algo, encerra o mistério (O que António Telmo apelidou de: - Passagem do vivo ao morto).
Não são poucas as vezes que ouvimos pessoas referirem e com acerto, que a juventude não está no corpo mas no espírito. Infelizmente, da maneira como é afirmado, o ouvinte encara esta afirmação como um conceito compensador por parte de alguém que já possui uma idade avançada, confundindo desta forma juventude com modernidade. Daí, em termos do discurso político, ouvirmos com frequência, o tecnocrata, ou homem com pensamento tecnológico (se seguir-mos a nomenclatura usada por Martinho Heidegger), afirmar que deseja para Portugal um País moderno (do latim modernus. Que brilhantemente Hernâni Cidade traduziu como - o que segue a moda do dia. - Ou em termos populares - Maria vai com as outras).
No entanto o que se prescreve para  qualquer sociedade, predica-se na palavra juventude, do latim “juventus” (sopro, vento), palavra que significa: O que se encontra no meio, entre o infante (o que não fala) e o adulto (o que fala). O que se encontra entre o princípio e a actualidade, ou seja ainda,  o que une o início (no homem, nação, País, etc...) com os dias de hoje (age-se hoje, com o espírito de sempre). 
Repetindo, a existência da instrução sem educação chama-se como dissemos mitologia, do grego mythos, que significa enredo e, logos, que significa pensamento. Ou seja, mitologia, significa pensamento incidindo sobre um ponto ou parte do enredo.
O homem actua de duas formas diferentes face à mitologia: - de forma crente -, crendo e simultaneamente trocando o principio pelo ponto do enredo, seguindo e agindo na vida como se o segundo fosse o primeiro. Ou ainda de forma exegética, onde o ponto no enredo tem como finalidade o movimento de religação (ou religião) com o princípio.

Neste acto de guiar de dentro para fora a que se dá o nome educação, surge no homem a ligação interior com algo existente nele (entre outras): - A Política.
Sendo essa ligação mais estreita em alguns homens que noutros, o que será o mesmo que afirmar, que a política surge de forma activa em alguns homens, de forma passiva noutros (Todos homens sentem e discorrem sobre política, mas nem todos são políticos (o que não faz deles melhores ou piores, apenas diferentes)).
A religião da antiga Grécia, diz-nos que após Prometeu (o titã) ter trazido o fogo aos homens, estes começaram a industriar, a lavrar etc..., por outras palavras: a progredir no mundo. Mas, simultaneamente, iniciaram um processo de roubo e de guerra entre si. Então, Zeus, o rei e pai dos deuses (a justiça e a harmonia (Zeus + Hera = Arc. S. Miguel)), ao verificar o que se passava, para acabar com o conflito, enviou aos homens o seu mensageiro; Hermes, o deus da inteligência e da eloquência, de forma que este ensinasse aos homens a arte da Política.
A Zeus, competiu a responsabilidade de transmitir aos homens a arte da política, mas como podemos perceber, o rei e pai dos deuses, não se preocupou em transmitir aos homens ciência política. Os deuses, tiveram como missão transmitir aos homens informação sobre o que não muda e, que transporta o homem em direcção ao uno, deixando no entanto, espaço para que o homem aprenda e apreenda por si próprio informação no que diz respeito ao que muda: Ciência. Como afirmou o vate lusitano: - O mundo é composto de mudança.
Destarte, a política é pois composta por arte política e por ciência política. À primeira compete a função intelectual e espiritual de unir. À segunda, compete consubstanciar a primeira e, agir, desunindo as ameaças a essa mesma união (Um pintor necessita de ciência do saber pintar, para poder expressar a sua arte (a técnica de saber pintar não é arte)).
A ciência política sem a presença da arte política (postura mitológica. Inversão do segundo pelo primeiro), residirá carente da sua função consubstanciadora e construtiva, não perdendo por outro lado o seu papel divisionista, destruidor. Daí o popular dizer: - Dividir para reinar (Maquiavelices sem arte política, não será mais que a virtude de um canalha).
A passagem da educação à descoberta da política activa por parte do homem, transporta-nos para a terceira análise de cariz epistemológico, ou seja psique-pneuma, pois o que governa ou reina é a pneuma e o intelecto que a procede.
No entanto, a política activa num homem de nada serve sem que este possa comunicar. Para além dos meios de comunicação necessários à política e consequentemente ao político, a estes será impossível comunicar sem energia. Arriscando ofender o espiritista mais prosélito, afirmamos que os mortos fisicamente não comunicam pelo facto de não possuírem energia.
Temos pois reunidas todas as propriedades que são necessárias à composição de um estado de facto. Para que este possua se predique no real. Este terá que fornecer a si próprio: - Comida, bebida, habitação, educação, política, comunicação e energia.
Um País onde os seus naturais não possuam controlo sobre as propriedades acima descritas, poder-se-á dar o nome de estado sob o ponto de vista formal, nunca sob um ponto de vista formal e substancial (de facto), devido à evidência, de não ser possível agregar os três leituras epistemológicas numa só (a quarta leitura), tal como acontece em termos literários com a epopeia (onde a acção é una). Lembramos que tanto Camões como Dante afirmavam, que existiam quatro maneiras de ler as suas imortais obras (Assim como a Bíblia, Corão, Avesta Etc...).
Caso a leitura das propriedades de um estado não seja efectuada de forma epopeica (una – o que o homem é), só residirão as outras duas formas restantes: - a trágica – onde o homem se faz inferior aquilo que é; e, a cómica – onde o homem se faz superior aquilo que é (face ao estado real, ambas são ilusórias (se é ilusório, logo não é – mas ilude-se na tentativa de ser)).

Verifiquemos então dentro do que foi afirmado, que expressões pode um estado assumir. O estado pode assumir uma expressão Monárquica, Aristocrática ou Democrática, o que em termos formais significa: a forma como organiza as suas instituições. Corrompendo a três expressões de um estado acima descritas, teremos e por ordem: Tirania, Oligarquia e Ditadura de uma maioria.
Por motivos práticos face ao que rodeia os portugueses e Portugal hoje, apenas incidiremos o nosso espírito sobre a Democracia (Poder do Povo).
Sobre isto, será boa prática relembrar o que nos deixou o eruditíssimo Álvaro Ribeiro em texto do início do ano de 1976:
(…) A Democracia não é uma instituição, nem está definida na Constituição. Não tem existência concreta nem essência abstracta . Desse modo, tudo quanto seja dito para servir a Democracia soará como um falso balbuciar de palavras sem ideias nem significações.
Dir-se-á como um servilismo mitológico, impróprio de homens que receberam o primeiro grau de cultura, e que assumiram fácil consciência da sua liberdade.
A Democracia não é uma deusa para adorar ou invocar. Tornam-se portanto execravelmente ridículos os bonzos que se tratam uns aos outros por democratas, já que nos aparecem convictos de que são eles depositários ou mandatários da Cracia, em alemão Kraft, em português Poder. Quem os iludiu de que alguma vez foram investidos em tão discutida e evanescente dignidade?
Porque não imitam a modéstia do povo?

Para além da expressão de um estado, sujeita à necessária psicanálise, ou, à passagem da filologia à filosofia, a democracia pode também definir-se como movimento ( Não tem existência concreta nem essência abstracta), em que o homem verifica a sua presença não no substantivo (.A Democracia não é uma deusa para adorar ou invocar), mas no adjectivo - Democrático.
No entanto, como se verifica, não só em relação à Democracia como em relação ao que rodeia o homem em geral, existem duas atitudes básicas diferentes por parte deste: - Entre o democrata e, o que pretende o que é democrático. Entre o consumidor, em que o consumo se baseia numa acumulação de objectos físicos ou ideológicos e, o coleccionador, o que adquire com pretensão de tornar algo perfeito, física ou ideologicamente.

Tomando por empréstimo a nomenclatura usada no conhecimento do marketing e comunicação como maneira de definir o comportamento do consumidor, teremos que definir a raiz deste como um comportamento circular com acentuação numa trindade.
O consumidor segue na vida orientado por interesse (dinheiro, posição intelectual, posição social, Etc.), logo, não é possível ser possuído por interesse sem a imperativa presença do medo. Na presença destas duas propriedades provocadoras e provocantes da degeneração do carácter humano, será impossível não obter uma terceira – a honra. Honra esta, não ligada à nobreza, mas aos mitos e crenças da época sobre o que é ou não é ser honrado.
Destarte, afirma-se que o consumidor vive em constante estado de conflito, não só com o que o rodeia mas também consigo próprio, tal como nos diz Tucídides na sua magnifica obra A guerra do Peleponeso: - Só há três maneiras de se iniciar e fazer a guerra: Pelo interesse, pelo medo e pela honra.

Como será fácil cogitar, o comportamento do homem acima descrito não é isento de afectar esse movimento social que desagua num regime democrático, a começar pela análise que se faz da própria democracia. Uma das maneiras mais fáceis de se observar um estado onde se constate o poder do povo, é exactamente a busca do que é oposto ao poder no homem, ou seja, a solidão.
Seja alvo de uma interpretação esotérica ou exotérica, facilmente se concordará que ninguém é possuidor de poder se estiver ou se sentir só, daí a multiplicação nos nossos dias dos chamados grupos de pressão, ou lobis, e ainda, a multiplicação de organizações sindicais e associações de beneficência. Poder-se-á no entanto colocar, e bem, a democracia sob a égide de um movimento messiânico. Devido à imperfeição humana e à constante mutação do mundo, não é possível ao homem a construção de regimes políticos perfeitos, destarte, não será incorrecto afirmar, que se pode verificar a presença da democracia num regime onde se verifica a tentativa de retirar a solidão ao homem.
A menos que queiramos ferir de morte o silogismo e assim enveredar pelo quelho da irracionalidade, afirmamos que num regime em que não se verifique na sua acção esse movimento de união (luta contra a solidão), ele não poderá ser chamado de democracia, pois o seu movimento é contrário ao poder do povo. Por outras palavras e em termos de imagem, um homem poderá ir do Porto a Lisboa e regressar de Lisboa ao Porto. O que será impossível, é um homem ir do Porto a Lisboa e regressar do Porto a Lisboa.
O que se verifica em todo o mundo ocidental, de onde os portugueses copiaram sem qualquer espírito crítico, sem a dignidade que a sua pátria e sua história com quase novecentos anos merece, é uma confusão entre democracia e sufragismo. È certo que não existe democracia sem a presença de sufrágio, mas o contrário já não se verifica. Ao constituir um “ismo” no que diz respeito ao acto de sufragar, este não é revelador da presença da democracia tal como a nossa história confirma, pois os Reis visigodos eram sufragados, mas face ao que sabemos, nunca passou pelo intelecto de um visigodo afirmar que vivia em regime democrático.

Embora Alexis de Tocqueville, na sua imortal obra Democracia na América, já nos referisse na altura o desagrado que lhe causava a ideia que os americanos tinham sobre a ditadura da maioria à qual denominavam democracia, desagrado aliás legítimo, visto a ditadura da maioria não ser mais do que a negação da própria democracia, é no entanto o pensamento do tragicamente assassinado Presidente norte americano Abraham Lincoln, que surge na voz dos pseudo-ideólogos do regime como majestática personagem que dá credibilidade a este patusco malabarismo ideológico.
É um facto que Abraham Lincoln defendeu esta tese. Não é menos verdade, que ao filósofo ou a qualquer pensador livre honesto, esta teoria em si própria é totalmente incompreensível. O mesmo já não acontecerá, se atendermos ao que rodeava esta imortal figura da história americana.
Abraham Lincoln, cuja governação se deu em pleno conflito bélico, em plena guerra de secessão, tinha como adamastino problema a trágica e ultrajante situação de milhares de escravos negros que povoavam os estados do sul da federação e, que obteriam a sua liberdade em breve.
Para esta população, desumanamente condicionada não só em termos psíquicos como em termos físicos, a ideia de colocar uma cruz num papel e, que essa mesma cruz valesse em termos quantitativos tanto como uma outra cruz colocada num papel por um outro homem, não só possui em si um fim didáctico, como também um fim político. Predicando-se esta ideia em algo que eleva esta ilustre personagem histórica acima de qualquer refutação por parte de um filósofo ou pensador livre, pois estes, caso não esteja presente essa disfunção gramático-espiritual a que se dá o nome de estupidez, verificarão que se encontram em presença de um Homem bom, logo, da bondade (irrefutável virtude teologal).
Qualquer analogia que se possa fazer entre um escravo negro da América do séc. XIX, alguém física e psiquicamente condicionado com o homem ocidental do séc. XXI (apenas psiquicamente condicionado), seria, como tanto gostava de dizer o inesquecível Delfim Santos: - Talvez seja demasiado muito.
Indo além de Aquino, que nos referia que um sistemas político ideal deveria ser constituído por um misto de Democracia, Aristocracia e Monarquia, afirmamos, que mesmo que se queira compartimentar um regime em apenas numa das opções referidas, tal não é possível, sendo simultaneamente algo que se demonstra por si só. Se olharmos para o os países constituintes do apelidado mundo ocidental, de imediato identificamos o monarca (ou tirano por corrupção). Figura mais ou menos respeitada, mais ou menos manipulada, que salvo excepção, se lhe atribui o nome de Constituição. Quanto à pretensa Aristocracia (ou oligarquia por corrupção), esta está presente na substancia ou ausência desta, nos mitos e crenças dos apelidados hoje líderes de opinião, que as impõem ou defendem. Estando ainda, os líderes institucionais da sociedade dependentes do voto popular, não se poderá de maneira nenhuma excluir a presença da democracia (ou ditadura da maioria).
A diferença mais ou menos visível, mais ou menos sentida, será na maneira como as sociedades se regem e, como tal, no peso das decisões da política configuradas nas instituições.

Existem várias maneiras de estabelecer uma diferença entre monarquia e tirania. Uma das mais vulgares e infalíveis, não é a tão divulgada violência por parte da personagem ou instituição que a representa, pois essa mesma violência pode ser provocada em defesa de uma tirania ou monarquia (Erro de Poper, quando atribuía à aristocracia platónica o epíteto de tirano). A diferença entre monarquia e tirania, pode ser facilmente observada na forma como as sociedades punem os seus constituintes, ou seja, a maneira como lidam com o facto de infracção igual, punição igual e sofrimento diferente ser admitido ou não directamente pelo poder político. Sociedades de consumo, que punem com coimas seus cidadãos sem prévia análise do seu património, pretendendo confundir poder de compra com valor a pagar face a uma infracção, não serão mais que tiranias crapulosamente encobertas por evanescentes mitos.
No que diz respeito à aristocracia e à oligarquia, esta será talvez a diferença mais fácil de observar, pois uma breve análise sobre o poder hodierno dos mitos e crenças dessa mesma sociedade, nos mostrará face a qual delas estamos presentes. Como exemplos: -Numa sociedade onde impere o poder de um culto religioso e o subjacente poder clerical, tenha decisão de vida ou morte, riqueza ou miséria sobre os constituintes, ou numa sociedade onde impere a economia e exista uma enorme diferença entre pobres e abastados, serão reveladora da existência de uma oligarquia (O aristocrata, é o que genuinamente é pelo outro (Une, logo, inibe grandes disparidades)).

Voltando à democracia, restar-nos-á identificar a razão pela qual o homem ocidental persiste na crença que o seu sistema político se predica na democracia. Para tal, vale a pena reler um pequeno excerto do discurso de Leonardo Coimbra no Parlamento português sobre a Questão Universitária.

“(…) As Universidades são, pois grandes factores de evolução da crença. E assim é que sempre que um bando tenta impor uma crença, adormecer o espírito humano num certo associonismo psíquico, esse bando vai à conquista das Universidades”.

Para nos ajudar a elaborar o nosso pensamento, não será descabido colocar um trecho da peça de teatro “O diabo vermelho” de Antoine Rault, tão condizente com a actualidade.

Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV

"• Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço…

• Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado… o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!

• Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

• Mazarino: Criam-se outros.

• Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

• Mazarino: Sim, é impossível.

• Colbert: E então os ricos?

• Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

• Colbert: Então como havemos de fazer?

• Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável."


A corrupção existente numa sociedade, salvo as devidas excepções onde se tenta modificar as mitológicas elites vigentes, é produto do grupo de indivíduos que se encontram no meio, seja lá o que a sociedade da altura considera “no meio” ou médio. Se tomarmos como exemplo o cristianismo e o funcionamento da sua trindade, verificaremos que o Pai e o Filho são unidos pelo Espírito Santo num uno (Deus é trino e uno). Quando esse mesmo espírito (o que surge no meio e une) contempla o homem (denominação de Graça), este torna o homem uno na sua vida terrena com o seu interior (homem completo, ou homem feliz em termos terrenos).
Da mesma forma, em termos sociais, é na ausência de um espírito unificador dos que estão no meio onde se poderá verificar o estágio e evolução de uma sociedade.

Numa sociedade que se denomina capitalista e onde a palavra capital se esvaziou numa nuvem de irracionalidade, pois desde à muito capital passou a ser abjectamente e apenas sinónimo de crédito financeiro, separando-a de toda e qualquer ligação ao conceito abrangedor de capitalidade, tal como nos diz Rault na sua irónica peça, cabe ao que se denomina desde o Séc. XIX classe média, no seu interesse, medo e honra, na sua ânsia face à potencial riqueza ou pobreza material, constituir todo um conjunto de mitos e crenças sociais expressas em dúbias constituições, que de republicanas apenas possuem o nome, que tendem ao - “adormecer o espírito humano num certo associonismo psíquico” – que nos fala Leonardo Coimbra, por intermédio do que se denomina líderes de opinião, elementos que regra geral se encontram no que denominaram classe-média/média-alta.
É pois com lamentável impotência, que os filósofos sentem uma desconcertante incapacidade de comunicar enquanto vivos (quando desaparecidos, a classe média procede regra geral à constituição de ideologias sobre o que o filósofo disse ou escreveu), pois a posição de Boécio face à discussão entre eutiquinos e nestorinos, parece nunca os abandonar, ratificando o sentido da célebre frase do mártir: - Perante tal loucura, eu sentia-me uma pessoa sã no meio de desvairados, mas se me erguesse e pedisse para falar, ir-me-ia sentir um desvairado no meio de pessoas sãs.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Da Graça




Aparece gentil e tão honesta
Minha senhora quando nos saúda,
Que cada voz, tremendo, fica muda
E os olhos não ousam mesmo olhar.
 Vestida de humildade, lá vai ela,
Benignamente ouvindo-se louvar;
E dir-se-ia coisa de espantar
Vindo do céu à terra, num milagre.

Tão agradável surge a quem a vê
Que pelos olhos dá ao coração
Dulçor para entender, de conhecer.
Dos seus lábios parece que desliza
Um sopro de amorosa suavidade
Que vai dizendo à alma, tu, suspira!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A. W. B.



Sois vós senhora que por minha mão escreve
Aninhada no meu ombro e pela calada,
Me em doce e suave ternura mata,
Em ausência de fulgor e tempo breve.

Sois bem mais do que pede a vida,
Alegria que Deus aos Deuses não concede,
Ó!! Beleza e calor que afugenta a sede,
Gentil nobreza que não me é devida.

Da dor e da alegria vou morrendo,
A dor desperta, pois a alegria o sente,
Da alegria, nasce a dor que não mente,
Da alegria e da dor vou vivendo.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Do Desconhecido















Bem vindo Sr. Infante!
Porque deitaste a porta abaixo?
Não falas? Ah! Sim... é essa a própria definição de Infante.
Simplesmente, não falas!
Apenas te desconhecemos!
Será que o desconhecido se conhece a si mesmo?
Serias então, verdadeiramente desconhecido?
Sois o dono do tudo e do nada! O que desconhecemos!
E tento eu te conhecer!
Mas ouve-me Infante... que posso eu fazer?
Conhecer o que já conhecia?
Em desconhecimento, estou ligado a ti!
E porquê? Pois muito bem... desconheço!
E desconhecer... o que quer dizer? Eu! Desconheço!
Mas estou ligado... mas o que é estar ligado?
Porque sinto?
Mas o que é sentir?
Como vês infante, estamos ligados até ao fim em desconhecimento.
Que maravilha Infante! Não é?
E tu... continuas sem falar...
Se corro ou paro na vida porque tu mandas... o desconheço!
Ás vezes chego a pensar que tu te desconheces!

Sabes... gostaria de fazer bem a alguém!
Isto do "gostar" que eu desconheço, é engraçado!
E o bem? Que vaidade! Fazer bem! Esta é boa!
E do engraçado e do vaidoso... a ambos desconheço-os!
No entanto, desconheço porque aqui estás!
Terás vindo de um lugar desconhecido?
Apenas para nós humanos te podermos desconhecer?
Que polido que és!
Embora eu desconheça o que és!
Isto está a tornar-se interessante,
e não sei porquê... vê lá tu?!
Giro não é?
Oooops! Mas o que é "giro"?
Sabes o que eu te digo?
Sabemos que desconhecemos, desconhecendo o conhecido!
Que tal? Estou pronto para a medalha André Breton?
Que podemos nós falar?
Do teu irmão... o conhecido?
Acredita! Conhecesse-mos nós e....





terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Da Tristeza

Se te preocupares um dia em defini-la... toma o teu tempo!
Ela não se vai embora!
Nunca partiu e nunca chegou... não se vai embora!
Apenas te observa sorrindo enquanto dás atenção à alegria!
Espera... espera... espera... no seu trono de mármore.
Aguarda pela tua humilde visita,
e com um sorriso nos lábios te encara de frente.
Como se te dissesse:
-“O bom filho à casa retorna”!
Pessoa, confundiu-a com um dos seus primos... o cansaço!  
Que bem aventurado! Que doce ilusão!
A bendita ilusão apiedou-se dele e transformou a figura dela.  
Mas… à sua frente... ouvindo-a com atenção...
Ela diz-nos:

“Parabéns! Poucos são aqueles que me encaram de frente!
Poucos são aqueles que me encaram sem a companhia da solidão,
essa ama seca!
Agora... apenas tu e eu!
Como vês.. sou como a minha irmã... a alegria... INFINITA!
Dessa infinidade que se ri do tempo!
Se buscas o meu fim... não encontrarás... pois buscas a ilusão em vez de mim!
Repito-te! Assim como Deus... sim... sou infinita!
Os pacóvios dizem que mato!
Como se eu ligasse à vida ou à morte!
Arrogante pensas tu? Então testa-me!
Espalha alegria à tua volta e olha para ti.
Que triste que és!
Patético eu diria!
Ilusão... ilusão... ilusão...
Tal como a alegria de Deus, eu estou sempre presente!
Humilde... sem rosto. Embora tu vejas o meu sorriso!
Sou a Senhora dos enganos.. pois se me chamam solidão...
eu rio!
Chamam-me náusea...
e eu danço!
Chamam-me dor...
e eu rodopio!

Poucos são aqueles que me olharam de frente!
Observas-me... ficas-te... pairas...
Não é verdade?
Onde está o céu e a terra agora?
Pois... na minha fazenda, as ninharias não têm entrada!
Não existem aqui, nem céu... nem terra...
não existem aqui, nem choro... nem lágrimas....
Apenas cá estou eu... humilde... na espera por boa companhia.
Hoje, estás tu à minha frente... é triste!
Amanhã, à minha frente estarás... que triste!
E fazes-me companhia... não é triste?
Nem mundo nem Deus!
Nem amor nem ódio!
Apenas eu... apenas eu... apenas eu....
Mas podes ficar triste... pois só assim fazer-me-às companhia!
Sabes já quantos o fizeram?
Bem menos do que tu possas imaginar!
Repara! Vê-los a chorar... a gritar!
Olha para a sua dor! Confundem-me com a dor!
Ah! Ah! Ah! Pobres coitados!
Dizem que estão tristes!
São como aquele que grita por ajuda com os pés colocados num charco!

Estás à minha frente!
E agora?
Como já somos íntimos... responde-me!
Onde vais? Em que direcção?
Em mim não existem nem céu nem terra...
não caminhas, nem te elevas...
não vives... nem morres!
Apenas me tens à tua frente!
Nem amada... nem odiada!
Nem bela... nem feia!
Estou apenas e sempre... à tua frente!

Escreves sobre mim... que triste!
Ah! Ah! Ah! É ridículo escrever sobre mim!
Julgas que te entenderão?
Julgas que ficarão tristes?
Ouve o que eu te digo!
Pouquíssimos me conheceram!
Ao ler as tuas palavras sentirão emoção...
isto, para além da nossa amiga compaixão.
Dir-te-ão a sua interpretação. Sim! Porque um homem tem direito à opinião!
Ah! Ah! Ah!
Relatar-te-ão histórias da sua vida, em que pensam que me conheceram.
Confundem-me com tudo!
Simplesmente... não sabem quem eu sou!

Estás à minha frente!
E agora?
Onde está a tua vontade de viver ou morrer?
Vida e morte, não são mais que NADA ao pé de mim!
Ouve-me bem! EU! SOU A TRISTEZA!
Podia-te chamar filho... mas para quê!
Tu estás à minha frente... e agora"?  

domingo, 23 de dezembro de 2012

É verdadeiro, completo, claro e certo! O que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima. Para realizar os milagres de uma única coisa. Abençoado de ti que descobriste o enigma.



Conversas Intermináveis



- Quem está aí?

LV - Sou eu rapaz, tem lá calma!

- Luís Vaz!!!! Não sabes o quanto contente estou por te rever!

LV - Eu sei! Por isso é que vim. E claro, aproveito também para beber umas branquinhas.

- Não podes imaginar o quanto estava a precisar de ti!

LV- Porquê? Tudo o que podia fazer por ti já o fiz! Sabes isso, não sabes?

- Claro que sei! Mas necessito de alguém com quem possa falar em verdade.

Fiéis do Amor
LV - Porquê? Tens outra maneira em que possas falar? As tuas palavras, como se diz hoje, têm o disco formatado na verdade. Podes tentar mudar de disco, o que me iria divertir muito!

- Esquece agora isso e ouve... ENCONTREI-A LUÍS!!!

LV - É lá! Não me digas?! E eu que não sabia! E nem é por isso que aqui estou! Então diz-me lá moço, e que tal?

- É devastador!!!

LV - Não me digas que após tanto esforço e asneiras não gostaste de rever a Índia?

- Ela está linda!!!!!!!!!!!

LV - A sério? Deixa-me ver se adivinho. Ela está muito mais bela do que a primeira vez que tu a viste. Sentes-te desleal e infiel, porque após teres andado tantos anos com uma imagem na tua moleirinha, imediatamente a trocaste por uma nova e, com aquele contra-censo, onde a imagem da mais antiga é que é a recauchutada. Acertei?

- Gaita! Como é que tu sabias?

LV - Deixei de te acompanhar à sete anos rapaz! Deixei-te nas mãos dela! Deixei-te, porque já não tinha mais nada para te ensinar, a partir dali, apenas ela podia fazer algo por ti. Lembras-te da obra do Alighieri?
Estás tão perdido que dá dó! Bem... façamos então umas perguntinhas. Dentro de ti, o que é que ela te dizia?

- Bem... de facto... ela sempre me disse que eu a encontraria muito mais bela do que antes.

LV - E tu, com a tua lógica de pacotilha não a ouviste... não foi?

- Não exageres! Claro que a ouvi! Como poderia não ouvir!? Mas era demasiado bom para ser verdade.

LV -. E ela é o quê?! Não suficientemente boa para ser verdade? Escreves frases bombásticas como – Os homens agem na vida como se o amor não existisse – ou – a grande diferença entre verdade e ciência -, mas quando ela te diz, que no mundo a vais encontrar muito mais bela, tu achas que pode não ser verdade.

- A beleza dela baralhou-me Luís... não sei o que dizer! Eu sei que ela não me mente... mas a verdade é tão incrível!
Mas diz-me Luís, quando viste Natércia passado anos, o que é que fizeste?

LV – Burrice como é óbvio! Ajoelhei-me à sua frente, e como se ela fosse uma Deusa, pedi-lhe perdão.

- A sério??

LV – Ai não!

- Mas??????????

LV – Porque só depois é que dei conta, que a palavra perdão é tão pequenina, que naquele contexto fica noutra orbe distante. A minha imagem de joelhos... bem... essa então nem tenho palavras! Como se alguma vez um homem que se coloque de joelhos à frente da sua amada, possa passar a ter algum crédito por causa disso!

- E o que é que ela fez?

LV – Arrasou-me! Baixou os olhos e chorou! E o que é que fez a tua amada?

- Baixou os olhos e chorou!

LV - Vês?! Toma e embrulha!

- Comigo pode ter sido mais complicado, é que eu apenas a vi em fotografia. Para além de ser linda de morrer, devastou-me o seu olhar. Foi como se eu visse os trinta anos das minhas asneiras no seu semblante e... a nobreza... aquela nobreza no olhar... com esse mesmo olhar, confirmou-me todos os meus receios, confirmou-me tudo o que eu mais temia. Vê-se que teve muitos anos de sofrimento, mas o seu olhar continua nobre, o seu olhar apresenta-se como se ela... humilde e docemente aceitasse, todos os sacrifícios que a sua vida lhe provocou e provocará. Quando vi aquele olhar, apenas não colapsei, porque dentro de mim ela não deixou. É desorientador!
Apenas o que me fez rir, foi noutra fotografia, ter revisitado o seu ar sério e austero. Para quem não a conheça, fica em sentido como se estivesse à frente de Leónidas.

LV – Humm! Séria...!? Austera...!? Leónidas...!? Relembra-me, como é que se chamava o Presidente para a Europa, daquela empresa onde tu trabalhaste?!

- Qual delas?

LV – Aquela que o presidente era um Italo-americano.

- Áhhh! O Pascoal Giordano?!

LV – Exactamente! Esse mesmo! Diz-me...., o que é que ele te pediu para fazer, quando o novo vice presidente da IBM se foi apresentar lá na vossa chafarica nos Alpes.

- Bem... pediu-me... para ficar atrás dele quando o maduro chegasse!

LV – E porque é que era necessário isso?

- Porque... bem... ahhh... porque..., quando nós os dois estávamos lado a lado, as pessoas tendiam a dirigir-se a mim como se fosse eu o presidente!

LV – E como é óbvio, as pessoas faziam isso, porque tu colocavas uma carinha larocas, não é?! Ó meu “Leonidas-casse-trogne”?!

- Certo! Mas estás-me a querer dizer o quê?

LV – Donde te vem esse ar austero que tu colocas!? De fora ou de dentro!? Só encontras nela, o que nela há em ti. Só viste a nobreza do seu olhar , porque ela vive em ti! Um tecnocrata ao olhar para ela, vê se ela é jeitosa ou não. Se ela é jeitosa para ti, é porque essa jeitosice vive em ti! Percebeste jeitoso!?

- Então... deve ser por causa disso, que eu gostaria de passar a minha vida na praia. Ela também gosta...!

LV – Não...! Ilusão tua!

- Estou habituado, a saber o que ela me faz sentir em relação ao que me rodeia. Sobre esses pormenores, eu nem me tinha lembrado que poderiam acontecer! Mas o oposto também pode acontecer!?

LV - Como é óbvio, vocês são sexos opostos. Haverá situações, onde os opostos não serão ligados pela semelhança, mas pelo espírito!  
Bem! Mais uma branquinha! Tenho a garganta mais seca que o coração de um banqueiro!

- Estou muito impressionado com outra coisa Luís!

LV – Coisas é comigo! Por falar nisso, mais uma branquinha!

- Ela estava à espera de mim! Bem! Não exactamente de mim, ela não sabia quem era em particular! Estava à espera de alguém!

LV – Isso é sempre verdade! Mas como sabes isso?

- Psicanálise! As duas primeiras mensagens de retorno dela assim o indicam.

LV – Essa da psicanálise foi brilhante! Como que sem a passagem da filologia à filosofia, o homem pudesse saber fosse o que fosse!
Bem! Não preciso de te perguntar, o que é que ela dentro de ti dizia, pois não?

- Claro que não! Mais ainda! Aqui à uns anos atrás, em alguns outonos, tive alturas em que sentia como uma espécie de chamamento em aflição por parte dela. Embora isso também tivesse acontecido noutras alturas do ano.
Não crio teorias da conspiração Luís, sei que se eu a busco, é porque ela me aguarda. Se eu tenho necessidade de a encontrar, é porque ela tem necessidade de ser encontrada. O que me espantou, é que tudo isto aconteceu por intermédio de mensagens electrónicas, onde ninguém tem acesso às expressões faciais uns dos outros. Como é que ela sentiu que havia algo naquelas perguntas tão simples que fiz.

LV – Deus colocou-ta em ti! Não tentes ser Deus! Dá mau resultado! Há questões para as quais, nenhum homem ou mulher terá respostas. É por isso que Deus é bom! Sem mistério, nunca haveria espanto, sem o espanto, não haveria o prazer do amor.
Upa! Upa! Esta branquinha é mesmo boa!
Chegaste não foi?! Não tens um cavalo branco, mas pelo menos, calças botas alentejanas, o que para os dias que correm, não está nada mal.  Fizeste o que tinhas que fazer ou não? 

- Sim! Fiz!

LV – Então... agora é com Deus!
A conversa foi curta mas boa! E agora deixa-me dormir, pois sinto as minhas tripas em vinha d'alhos.



domingo, 4 de novembro de 2012

Uma fabulosa fotografa Luso Canadiana

Andrea Lee Fonseca nasceu em Toronto no Canadá, filha de pai canadiano e mãe portuguesa.
Para uma luso-portuguesa que se expressa pouquíssimo na língua de origem da sua progenitora, Andrea, embora provavelmente sem o saber, de forma misteriosa, traz-nos por intermédio da arte de fotografar uma das mais belas e sublimes formas de lusitanidade que temos contemplado ultimamente.
Sem talvez nunca ter sabido que o território que é hoje Portugal, foi apelidado pelos gregos do primeiro milénio antes de Cristo de ophiussa, ou terra das serpentes (devido ao culto da serpente que seus habitantes veneravam, culto este, dedicado desde o alvor da humanidade à Deusa Mãe Terra), exibe esta no seu portfólio, um reduzido mas excelente conjunto de fotografias onde com magnifica sensibilidade lusitana, nos dá o prazer de revisitar essa relação tão intrínseca entre a mulher e a natureza - beleza da mulher e a beleza natural. Relação esta, consubstanciada em algumas das suas fotografias, onde a mulher é abraçada e absorvida por luxuriante vegetação e, noutras,  como por milagre, o movimento feminino é captado pela câmara de forma irradiante, espalhando-se e fornecendo vida ao imobilismo circundante.

Mais é de espantar, que no seu sítio internetino, na zona do perfil, Andrea dá-nos a conhecer a sua admiração pelo biólogo, teorista e conservacionista Edward O. Wilson.
Para quem desconhece a obra deste cientista, bastará uma curta visita à Wikipédia e logo lhe surgirá dois registos de notável informação:

"The evolutionary epic," Wilson wrote in his book On Human Nature, "is probably the best myth we will ever have." Wilson's intended usage of the word "myth" does not denote falsehood - rather, a grand narrative that provides people with placement in time—a meaningful placement that celebrates extraordinary moments of shared heritage. Wilson was not the first to use the term, but his fame prompted its usage as the morphed phrase epic of evolution".

Edward O. Wilson
“Human beings must have an epic, a sublime account of how the world was created and how humanity became part of it ... Religious epics satisfy another primal need. They confirm we are part of something greater than ourselves (...) The way to achieve our epic that unites human spirituality, instead of cleave it, it is to compose it from the best empirical knowledge that science and history can provide.”

e ainda como comentário:

Cosmologist Brian Swimme concludes in a 1997 interview

“I think that what E. O. Wilson is trying to suggest is that to be fully human, a person has to see that life has a heroic dimension (...) I think for the scientist, and for other people, it's a question of "is the universe valuable? Is it sacred? Is it holy? Or is the human agenda all that matters?" I just don't think we're that stupid to continue in a way that continues to destroy. I'm hopeful that the Epic of Evolution will be yet another strategy in our culture that will lead our consciousness out of a very tight, human-centered materialism”.

Não será necessário ler estes pequenos trechos de informação com extrema atenção, para denotarmos que o E. O. Wilson proclama, não é mais do que Leonardo Coimbra, Agostinho da Silva, António Quadros, Dalila P. da Costa e a esmagadora maioria de filósofos e pensadores livres ligados ao que ficou conhecido como o movimento da filosofia portuguesa, sempre defenderam durante todo o séc. XX, com continuação por outros no XXI. Movimento filosófico este, ainda hoje negado de modo bafiento por sinistros e obscuros neo-mecanicistas nacionais. 

Nos nossos dias, os menos avisados, continuam a dar-nos pateticamente razões científicas para a impossibilidade da ocorrência do milagre de Ourique e outros , confundindo puerilmente, a diferença existente entre ciência e verdade, entre ideologia e crença e seu distinto movimento. Mas este assunto ficará para uma outra altura..  

Explicando o que é a xenophilia em suas palavras, diz-nos Andrea:

"Xenophilia, love of what is foreign, is an exploration of our place in nature and the mixed messages we are exposed to about our separateness and unity with the natural world. Through a journey, from belonging, to awareness of difference, to reintegration, this series concludes that we can only be what we are in relation to how we define what we are a part of".


mais ainda

"We belong to the natural world. From our inflated sense of having arrived at some pinnacle of evolution, we have lost the sense of belonging that is our biological heritage. We have accepted this false separation and have been wrenched from the forest. Yet all of life is part of us. We cannot be separated and it is only upon our return to this place that we can recapture this truth of belonging to something, everything, and become part of a much greater world".

Embora escrito em inglês, mas de forma tão lusitana no feminino, esta luso-canadiana transporta na sua relação com a arte de fotografar e na sua visão cósmica do mundo, essa mesma relação que podemos ler nas obras da saudosa e recentemente falecida Dalila Pereira da Costa por intermédio da palavra. Essa relação una,  inconsútil da mulher lusitana com a terra. Tendo como paralelo no masculino, o conhece-te a ti mesmo, proclamado desde tempos imemoriais e abraçado pelos filósofos desde o séc. VIII ac. Preceito este, infelizmente quebrado em Portugal de forma extemporânea por Marquês de Pombal e Padre Luis A. Verney no séc. XVIII, que obteve como devastador resultado, a imitação em termos totalitários por parte dos portugueses, desse comportamento macaqueador face a toda e qualquer moda ou ideologia estrangeira.

Estamos pois face a uma fotografa luso descendente, e também perante uma fascinante descoberta. Sobretudo se tivermos em atenção que a tendência de ordenação religiosa em terras canadianas tal como nas dos Estados Unidos, não se predica no culto da Deusa Mãe, mas sim no que um cristão apelidaria de Espírito Santo. Tendência esta, bem manifestada no culto e na comiseração face ao divino por parte dos povos autóctones, onde embora dado a conhecer por intermédio do feminino, este apenas possui uma importância provedora, pois toda a espiritualidade das tribos índias é dirigida ao grande Manitu, o grande espírito que relaciona em perfeição os céus com a terra tornando-os uno: - Avô, Grande Espírito. Não há outro a quem rezamos. Vós mesmo e tudo o que vedes foi por Vós criado (Alce Negro).
Não será também por outro motivo, que se verifica uma desorientação religiosa tão notável nos povos imigrantes que compõe a população norte americana, e como tal, a sua gorgonina e destrutiva atitude face à natureza propulsionada ainda hoje pelos escritos de Locke (hoje, com corrupta mistura do idealismo alemão).

O que consideramos como mais notável no trabalho desta artista, é o credível e honesto espírito que relaciona pensamento e movimento. Defendendo o pensamento epopeico de E. O. Wilson, Andrea coloca um movimento nas suas imagens que para qualquer homem possuidor do peito ilustre lusitano, facilmente relacionará não só a figura feminina como a paisagem luxuriante, com as ondinas (de carne e osso) e a ilha dos amores camoniana.
Digno de registo é também, a diferença existente entre o espírito epopeico onde esta artista nasceu e cresceu e o lusitano.
Esmagadormente influenciado pelos Estados Unidos da América, o espírito epopeico canadiano baseia-se em grande medida no do seu hercúleo vizinho.
Melville diz-nos no seu Moby Dick, que o homem vai atrás do mal. E com o quê? Com o que é Mal! Destroem-se ambos no mal, ficando no final o quê? O mal!
Por outro lado, na epopeia lusitana, Camões diz-nos que homem que é homem, aquele que possui o peito ilustre lusitano, vai até ao cabo do mundo. Depois do adamastino reconhecimento de si próprio, prossegue sua problemática viagem já não a descer mas subindo em direcção à Índia. Diz-nos ainda o vate lusitano, que já depois de terem levantado ancora da Índia, os nautas encontraram de forma misteriosa a Ilha dos Amores.
Resumindo, homem que é homem terá que ir à Índia (Dos fracos não reza a história). Existe a ilha dos amores é certo. Mas isso... são negócios de Deus.
Ao observarmos as fotografias de Andrea, verificamos com doce e matrimonial emoção, que esta exprimiu por intermédio de sua arte, esse divino e puro receptáculo arquetipal tão nobremente exposto pelos poetas e filósofos lusos.

A sociedade canadiana, possui alguns pontos em comum com a portuguesa, pois tanto numa como noutra, predomina o consumismo estimulado por entidades financeiras. No entanto, sendo portuguesa apenas pelo lado materno, não tendo grande informação da mais alta cultura do país de sua mãe, não possui conhecimento também de parte substancial dos mitos e crenças negativistas que assolam hoje o nosso País e, que impossibilitam outras artistas de expressarem a sua mais profunda lusitanidade no feminino com esta beleza, procedendo sim, à imitação de movimentos culturais estrangeiros, muitos deles de intelectualidade duvidosa.  


Destarte, ao ligar sua alma à arte, esta fabulosa artista demonstra a um País, que por muita destruição que possa acontecer, por mais vermesinos ataques que positivistas, tecnocratas e mecanocratas façam à sua própria Pátria, ela vive e viverá onde estiver um português ou seus descendentes. Porque a Pátria é misteriosa... e Eterna.  

Obrigado Andrea


www.andrealeefonseca.com